10 de maio de 2014

Toda A Casa Tinha Uma Cobra

Dizem, por cá, em sentido figurado, que toda a casa tem uma cobra e há até quem diga, que algumas têm mais que uma, mas não me refiro a estas nem quero, mesmo que em sentido figurado. Antes de nos debruçarmos sobre as serpentes/cobras rastejantes que habitam a Aldeia Samarra, façamos uma visita às suas ancestrais.
Nas diversas simbologias a serpente é um animal muito presente, nomeadamente nos textos Bíblicos, onde aparece pela primeira vez, logo no Génesis, na história de Adão e Eva no Paraíso, Jardim do Éden. Génesis 3-1: A serpente era o mais astuto de todos os animais selvagens que o Senhor Deus fizera;…, no Antigo Testamento, ela é referida 27 vezes e no Novo Testamento 10 vezes, sendo que, a última onde a podemos ver citada é no último livro da Bíblia, no Apocalipse 20, 2: Agarrou o Dragão, a Serpente antiga, que também se chama Diabo ou Satanás:…, portanto, só no singular é citada 37 vezes e no plural, aparece em mais 20 citações; por exemplo: em Mateus (Mt. 10,16): – Envio-vos como ovelhas para o meio de lobos; sede, pois, prudentes como as serpentes….
Elas aparecem como vários símbolos e significados. A serpente, em hebraico, “nahash”, aquela que sabe segredos que é sábia. As serpentes entrelaçadas: são o símbolo da medicina, símbolo da sabedoria.

Símbolo da Medicina.


As paredes íngremes dos túneis que descem até às tumbas dos Reis-Faraós, no Vale dos Reis no Egito, estão cheias de pinturas milenares, que nos parecem terem apenas umas centenas de anos, tal é o seu óptimo estado de conservação, e de entre os símbolos representados, marcam presença as serpentes, por serem aquelas que debaixo da terra e no meio das águas, podiam levar os alimentos para o tumulo dos Reis e os alimentarem.

As serpentes aqui representadas, nas paredes de acesso às tumbas.

As serpentes são figuras proeminentes nas mitologias: grega, egípcia e em muitas outras civilizações. São referidas como símbolos da fertilidade, da imortalidade, da eternidade, deusas, etc.; são apresentada como personificando a desobediência a Deus. Deus o Bem / a serpente o mal o demónio.
Existem mais de 3.000 espécies diferentes de cobras no mundo e a maior é a Sucuri da família da Anaconda e a mais venenosa é a Inlanda Taipan da família da Coral e Naja aqui na foto. “Wiki”.

A serpente mais venenosa do mundo e a víbora de Portugal.


Em Portugal, existirão cerca de uma dúzia de espécies de serpentes, sendo que duas, são do grupo das víboras com cerca de 70cm e de cabeça achatada e triangular e que têm o veneno mais tóxico do que as cobras; a víbora-cornuda e víbora-de-seoane. “Wiki

Passemos das serpentes da mitologia às serpentes/cobras que rastejam pela aldeia e campos Samarras. 
A grande maioria das casas, na aldeia samarra, eram construídas de pedra sobre pedra, os buracos abundavam, sobretudo nas lojas ou em anexos, mas mesmo em muitas habitações, que, por norma eram divididas no seu interior com entaipas, onde poucos conseguiam segurar um prego e enchidas com barro ou adobe, e quando possível caiavam-nas, para darem a sensação de mais conforto. 

Exemplares de casas de habitação de pedra sobre pedra.


Sendo assim e porque era nas lojas que se guardavam os géneros alimentares para todo o ano, como os cereais, batatas, maçãs, leguminosas, etc.; os buracos entre pedras eram entradas francas para os ratos, doninhas e cobras, cujo alimento principal, destas, eram os pequenos roedores e ovos e ali encontravam a mesa posta para satisfazerem os seus apetites com estes petiscos predilectos, talvez por isso serem chamadas de “cobras rateiras”, de cor acastanhada escura e é uma das mais presentes. 
Os gatos também são actores destas cenas e tinham direito a uma porta de entrada e saída especial nas lojas e casas de habitação, era a “buraca”, dentro da própria porta, para também darem caça aos ratos e há quem diga que não trocavam este petisco pelas rações modernas, se bem que também ainda não existiam; mas, porque o troféu era o resultado do seu trabalho e faziam jus nisso; era um regalo vê-los a ensinarem os filhos a caçar e a brincarem com os ratos, “trabucar e manducar”, para aprenderem a enfrentar os tempos de crises.

No campo, também se encontravam exemplares de cor negra e esverdeada, como aquele ”cobrão” que saltou da gavela de trigo, que eu presenciei quando, ainda criança e que o Tio Jaime Paulos juntava par fazer o molho, nos terrenos do pomar da Casa Grande, num dia de segada.

O encantador de serpentes e o seu partner, em Kom-Ombo, Egito – 2004.


Quando despertavam da hibernação e largavam a pele, símbolo de renovação, denunciavam a sua presença, o que por vezes nos assustava, sabendo que elas se passeavam por ali sem que o sonhássemos.
É comum dizer-se que elas andam aos pares, como os melros, cobra e “cobrão”, mas dificilmente se vêem juntas, a outra estará por perto, o que não acontece com o casal de melros que se passeiam sempre juntos.
O J. Ribeiro surpreendeu há dias um casal enroscado um na outra, cobrão e cobra e de pé, com uma altura de cerca de 1,5m, na dança do acasalamento, quais odaliscas na dança do ventre, no palco maior das escadarias do passeio, o que ligava a Casa Grande ao seu pomar, tendo como decoração do seu arco e muros, em fins da primavera, aqueles cachos de lindas rosas e tão enamoradas estavam, que só não deixaram ali a pele, porque a vara que o J. Ribeiro tem sempre à mão se partiu, quando as tentava aplaudir, batendo contra a parede do passeio e elas assustadas regressaram ao seu refúgio debaixo das lajes trabalhadas deste passeio várias vezes centenário e preparadas para consumarem o acasalamento, agora num palco mais reservado, dado que o aquecimento já estava feito.
Ali os paus, encostados às paredes em lugares estratégicos, são armas à mão dos Zés; Viriato e Ferreira, pois elas com frequência saem do seu palácio para espreitarem o sol ou ensinarem os filhotes a sobreviverem fora da maternidade, sendo um dos refúgios ideais nesta zona da aldeia.

Há espécies de serpentes ovovivíparas, vivíparas e ovíparas e põe os ovos ou guardam-nos dentro dos seus corpos, até se encontrarem prestes a eclodir, no entanto, por vezes, põem-nos em ninhos de terceiros, engolindo os ovos das hospedeiras, para que lhos tentem chocar, mas não há quem relate, que as galinhas lhe tenham feito o trabalho. Como podemos constatar, o cuco não é o único “ocupa” a servir-se dos ninhos das outras aves, para colocar os seus ovos e para que estas lhe criem os filhos, deitando fora os ovos dos seus forçados hospedeiros. Uma vez saídas dos ovos, as serpentes ficam entregues a si mesmas.

Ninho com ovo de galinha e supos. ovos de cobra.


Aos primeiros calores de primavera saem dos buracos das lojas, sobem até às escadas, aos balcões e patamares destes, sobretudo nas casas desabitadas para começarem a carregar as baterias.
Na época dos ninhos, que é agora, viam-se com frequência nas árvores, dependuradas ou a caminho de um ninho, bem como a subirem por uma parede de alvenaria ou não rebocada e mesmo no tecto de uma loja ou de varanda para chegarem a um ninho e comerem os ovos ou os passarinhos.
As cobras, muitas vezes, assustaram as nossas mães com o seu sibilar, quando no campo davam de mamar aos filhos, resguardando-se do sol numa cabana de palha e de giestas, indo ao cheiro do leite da mamada.

Num dia frio de inverno, após acenderem a lareira, esta parte da casa tornava-se a área mais quente da mesma e enquanto a mãe sentada num banco mocho de cortiça e com o alguidar de barro no colo, partia as couves galegas e descascava as batatas para fazer o caldo, o seu homem com o benjamim ao colo, vigiava os outros cinco filhos para que não caíssem ao lume, enquanto se empurravam para ficarem o mais perto possível do calor proporcionado pela chama das giestas, ao mesmo tempo que esfregavam as mãos; ao pai também competia a tarefa de manter a lareira com a chama viva e contorcendo-se para trás com o filhote sobre as pernas cruzadas, tenta apanhar no canto da lenha mais uns ramos de estevas ou caruma e inesperadamente as mãos apanham o que lhe pareceu ser uma molida em rodilha e lança-a para a lareira e esta suposta molida era uma cobra que também procurava hibernar no sítio mais quente da casa.

Quando a mulher samarra amassava a farinha para mais um tabuleiro de pão a levar ao forno, é surpreendida por uma cobra a passar-se de um buraco para outro da parede no compartimento onde amassa o “pão”, o que lhe causou o habitual arrepio e medo que elas sempre causam, sobretudo, quando aparecem de surpresa. 
Recordo os fieis amigos, que à entrada de casa, aos primeiros raios de sol no fim da primavera e nos dias de verão, tomavam a posição de esfinge, descansando e vigiando a casa, em posição de prontidão, também, para impedirem que algum réptil, que acabara de hibernar, quisesse entrar à procura de alimento.

Havia um cão de pequeno porte, sabendo que a sua dona tinha um medo terrível aos répteis, sobretudo às cobras, quando se deslocava ao campo, posicionava-se sempre bem à frente no caminho para o limpar destes indesejados ofídios, que procuravam ganhar energia refastelando-se ao sol, abocanhando-os pelo meio do lombo, dava-lhe dois safanões e atirava-as para fora do caminho, recebendo os elogios e aplausos da sua dona, com a voz embargada, pelo arrepio e susto. Este fiel amigo dava pelo nome de “Joly” e decerto que muitos outros haveria, mas este pertencia a uma menina que gostava tanto de animais, sobretudo de cachorros, que um dia meteu em casa uma Serra da Estrela que passou na rua e como era verão, este, meteu-se dentro da banheira, onde a mãe da menina o foi surpreender.

Os garotos por vezes eram surpreendidos no campo, à distância, por uma vara estendida num caminho, alguma aguilhada perdida por um lavrador pensavam, mas quando chegavam perto, aquela que à distância lhes parecia uma vara, tomava pernas, como quem diz, e pirava-se rastejando qual relâmpago ziguezagueando.

Também os mesmos garotos, nos dias soalheiros, colocavam uma tigela de leite ordenhado de alguma cabra, à entrada dos buracos da parede de casa ou da loja, com a esperança que ela aparecesse ao cheiro do leite e fazendo jus à sua valentia de grupo, preparavam um pau com uns pregos de solho espetados na ponta para as tentarem matar. 
Isto, já não era trabalho de garotos mas de adultos já bem entrados na vida e que, por vezes, apanhavam uma pelo rabo e rangendo os dentes com raiva, davam-lhe duas voltas e batiam com ela no chão ou contra uma parede deixando-a atordoada, antes que ela com a sua elasticidade atingisse o braço do seu carrasco, matavam-na posto o que a esfolavam e já partida dentro da panela e sobre as brasas da lareira, ainda se contorcia qual malabarista; depois de tanto a água ferver e o sal que lhe tirava o contorcimento, era-lhe acrescentado o arroz ou a massa de pevide e a canja estava pronta a ser consumida e diz quem a provou, que sabia mesmo a canja e só nesta semana falei com 3 Samarras, agora citadinos, que me confirmaram que quando comeram gostaram. 
Ainda que sendo um animal mal quisto, no período do choco dos ovos, Abril - Maio, não se permitiam matá-las para as comerem, não porque quisessem respeitarem a sua procriação, mas porque a sua carne não seria apreciada.

Embora a maior parte das vezes sejam inofensivas e até tentem afastar-se na presença do homem, a cobra é um dos répteis que mais repugna e apavora muitos Samarras, nomeadamente as mulheres; ao primeiro impacto da surpresa, causam-nos pavor, arrepio e medo. Muitos outros episódios se poderiam referir, mas fiquemo-nos por aqui porque esta já vai longa.

As mitologias atribuem a estes ofídios inúmeras lendas, mas os fatos aqui relatados e que concernem à Aldeia Samarra não são lendas e para sossegar os espíritos incrédulos de alguns, diria dos mais novos, informo que, só depois de a fazer passar pelo crivo rigoroso das Três Peneiras, in ”O Livro das Crianças de António Botto”, que em 16 Dezembro de 1931 foi classificado com o “Nihil Obstat” e em 17 Dezembro 1935, mereceu o “IMPRIMATUR” de D. Manuel G. Cerejeira, Cardeal Patriarca de Lisboa, para que pudesse ser distribuído nas escolas e como passou com distinção, veio parar às páginas deste nosso blogue o “Osamarra”. 
Bem-haja ao J. Cordeiro, açoriano e Samarra por adopção pelo casamento, na pesquisa das citações Bíblicas sobre a serpente. 


Maio 2014 (40)
Apaulos





Artigo Completo: Toda A Casa Tinha Uma Cobra
Fonte: O Samarra
5 O CHIBITO: Toda A Casa Tinha Uma Cobra Dizem, por cá, em sentido figurado, que toda a casa tem uma cobra e há até quem diga, que algumas têm mais que uma, mas não me refiro a esta...

13:08 | 10 de maio de 2014


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