20 de junho de 2014

Hoje há "Peregrinação" no TMG com o teatro de papel da Lafontana Formas Animadas


"Peregrinação" é a fabulosa história do maior anti-herói português, Fernão Mendes Pinto, que teve que deixar, muito jovem ainda, a sua vila natal, Montemor-o-Velho. Ele conta a história da sua vida no livro que intitulou Peregrinação: passei a vida até à idade de dez ou doze anos na miséria e estreiteza da pobre casa de meu pai. Fernão fugia da pobreza da terra onde nascera por volta de 1510. Um tio, com boas relações em Lisboa, arranjou-lhe emprego em casa de uma família nobre, mas, aí, o moço iria passar por novos e mais perigosos trabalhos. Havia fugido de Montemor-o-Velho e, por temor do velho, seu amo lisboeta, teria agora que fugir da capital para não ser morto pelo seu empregador. Fernão não revela a razão desta fuga precipitada, mas tudo leva a crer que o moço, na altura com cerca de vinte anos, tenha sido seduzido pela mulher do nobre senhor. Eis como Fernão se refere ao caso: A tenção deste meu tio não teve o sucesso que ele imaginava, antes o teve muito diferente, porque, havendo ano e meio, pouco mais ou menos, que eu estava ao serviço desta senhora, me sucedeu um caso que me pôs a vida em tanto risco,  que,  para a poder salvar,  me foi forçado sair-me naquela mesma hora de casa, fugindo tão desatinado, c’o grande medo que levava, que não sabia por onde ia, como quem vira a morte diante dos olhos, e a dado passo cuidava que a tinha comigo, fui ter ao Cais da Pedra, onde achei ũa caravela d’Alfama…    
O famoso livro onde o nosso aventureiro conta a sua vida errante, embora só publicado em 1614, cerca de trinta anos após a morte de Fernão, foi traduzido para castelhano no mesmo século. A Europa, depois do que revelara Marco Polo, na Idade Média, estava sedenta de notícias das ricas terras do oriente. Por isso a versão italiana não tardaria e iria inspirar outro andarilho também veneziano, Pietro della Valle, que contou a sua aventura oriental num livro curiosamente intitulado Il Pellegrinaggio.
Maria da Graça Orge Martins referindo-se à maneira de contar de Fernão Mendes Pinto, diz que o discurso descritivo permite ao leitor elaborar grandes quadros mentais sobre a realidade descrita… e ele assiste ao desfilar de imagens e cenários exóticos plenos de sensacionalismo. A expressividade cinematográfica é, aliás, uma das mais importantes qualidades da Peregrinação. Fernão Mendes Pinto, ele próprio confessa no seu livro, capítulo V, que não me deu muito escrevê-lo assim toscamente como eu o soube fazer, porque entendo que o melhor destas coisas é tratá-las eu da maneira que a natureza me ensinou, sem buscar circunlóquios nem palavras alheias com que apontasse a fraqueza do meu rude engenho, porque se isto fizesse me tomassem com o furto nas mãos, e se dissesse por mim o rifão “Donde veio a Pedro falar em galego?”
Esta advertência do autor deu-nos a ideia de pormos em cena, um pouco à maneira de um filme de cinema, a fabulosa história do nosso anti-herói que correu terras e perigos, como conta o seu contemporâneo Luís de Camões, em Os Lusíadas, a propósito dos portugueses que em perigos e guerras esforçados  mais do que permitia a força humana chegaram ao Oriente rico.
Fernão foi atrás dessas riquezas que o mundo sabia, depois do Marco Polo, que só existiam no Oriente longínquo. Para lá partiu vinte e poucos    anos depois de Vasco da Gama. Mas foi só, fugindo, pela segunda vez, da sua desgraçada vida na pátria ingrata, para se embrenhar em novas desventuras: fui treze anos cativo, e dezassete vendido. Mas chegou ao almejado destino onde, pensava, iria ficar rico para sempre, a China… Outra vez ele se enganava, ou, melhor dizendo, mais uma vez a vida enganava Fernão, o nosso grande anti-herói…
Com a apresentação desta obra, a Lafontana – Formas Animadas vai dar continuidade à colaboração iniciada em 2004 com o Teatro Nacional de São João que levou a criação de dois espetáculos em Teatro de Papel, uma das mais fascinantes técnicas do teatro de formas animadas. Depois do êxito do Teatro de Papel / Anfitrião (2004) e do Teatro de Papel / Convidado de Pedra (2005), esta nova produção vai agora revisitar alguns dos mais curiosos episódios do Portugal quinhentista, através da Peregrinação de Fernão Mendes Pinto, o livro português que, no dizer de António José Saraiva, é, a seguir a Os Lusíadas, mais conhecido no mundo inteiro.
A proposta artística deste espetáculo centra-se, como dizemos acima, na aproximação das linguagens do Teatro de Formas Animadas e da cinematografia. Como ponto de partida recorrerá às técnicas do Teatro de Papel promovendo a sua evolução tecnológica e a sua relação com os recursos audiovisuais e da multimédia. O palco aparecerá ao público como um estúdio de cinema, com vários cenários em miniatura representativos dos espaços da narrativa e das suas personagens. Câmaras de vídeo, fixas e móveis, recolhem as imagens que depois serão enviadas para um sistema informático. Um computador central recebe os vídeos, promove o seu tratamento, montagem, mistura, sonorização e inserção de efeitos especiais, tudo em tempo real. O resultado final é apresentado ao público numa tela de projeção de grande formato que permitirá uma alargada assistência de espectadores.

Sinopse de José Coutinhas

Foto de JPedro-Martins

Esta noite, o TMG recebe o fantástico teatro de papel da Lafontana Formas Animadas. A companhia traz a sua mais recente produção "Peregrinação" ao Pequeno Auditório do TMG.
Hoje às 21h30. A não perder!






Artigo Completo: Hoje há "Peregrinação" no TMG com o teatro de papel da Lafontana Formas Animadas
Fonte: Teatro Municipal da Guarda
5 O CHIBITO: Hoje há "Peregrinação" no TMG com o teatro de papel da Lafontana Formas Animadas "Peregrinação" é a fabulosa história do maior anti-herói português, Fernão Mendes Pinto, que teve que deixar, muito jovem ainda,...

11:21 | 20 de junho de 2014


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